A proibição das casas de apostas online no Brasil, instituída por meio de uma Medida Provisória (MP) assinada pelo governo federal, coloca os clubes de futebol diante de um cenário de intensa incerteza financeira e contratual. A decisão governamental foi fundamentada nos impactos negativos associados à saúde pública e ao elevado endividamento das famílias no país.
Para o esporte nacional, contudo, as empresas do setor representam uma base expressiva de arrecadação. Esses recursos viabilizaram a expansão da vantagem econômica dos times brasileiros em relação aos concorrentes sul-americanos, coincidindo com um período de hegemonia na Copa Libertadores.
Entre os 20 participantes da Série A, 14 mantêm uma casa de apostas como patrocinadora master. Dados da Galapagos Capital indicam que, em 2025, o segmento respondeu por 34% das receitas comerciais das equipes, somando quase US$ 200 milhões (mais de R$ 1 bilhão).
O Flamengo, detentor dos títulos da Copa Libertadores e do Brasileirão, possui com a Betano o maior acordo de patrocínio na história do futebol sul-americano, avaliado em US$ 46 milhões (quase R$ 240 milhões) anuais. O montante equivale ao investimento feito pelo clube neste ano na contratação do meia Lucas Paquetá.
A Betano também assegura acordos de patrocínio com o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) aufere cerca de US$ 14 milhões (R$ 72 milhões) por ano pela inserção da marca nas denominações das competições.
A normativa estabelece a remoção da publicidade das bets até segunda-feira, 5 de outubro, embora não especifique os reflexos diretos sobre os acordos de patrocínio vigentes. O governo sinalizou a intenção de abrir um canal de diálogo com as agremiações após o primeiro turno das eleições, marcado para domingo (4/10), enquanto o Senado dispõe de um prazo de 120 dias para deliberar sobre a conversão da MP em lei.
Paralelamente, entidades representativas das casas de apostas ingressaram com ações no Supremo Tribunal Federal na segunda-feira para contestar a constitucionalidade da medida. No âmbito estadual, o governo de Minas Gerais anunciou um pacote de apoio financeiro de R$ 32 milhões voltado a clubes locais — como Cruzeiro, Atlético e América — afetados pela perda das receitas do setor, com o suporte de empresas estatais.
Especialistas em economia do esporte apontam que a restrição pode gerar desvalorização comercial e contenciosos judiciais. A entrada simultânea de diversos clubes no mercado em busca de novos parceiros tende a deprimir o valor das camisas e dos ativos esportivos.
O cenário atual também levanta dúvidas sobre a manutenção do predomínio técnico brasileiro na América do Sul. Desde 2019, ano em que os patrocínios de apostas ganharam força substituindo a presença histórica da Caixa Econômica Federal, 12 dos 14 finalistas da Libertadores foram equipes do Brasil, que atualmente ocupa nove das dez primeiras posições no ranking de clubes mais valiosos do continente, segundo o Transfermarkt.


